quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Silenciosas Metrópoles


     Silenciosas Metrópoles é uma série de pinturas em preto e branco que venho desenvolvendo há algum tempo. Nessa série percebo que o silêncio presente como tema, não é só o meu, mas também das cores, da ausência de movimento e dos becos formados pela perspectiva dos grandes prédios representados. São pinturas que se contrapõem as ruidosas cenas urbanas movimentadas e extremamente coloridas da atualidade. Esta série é um desdobramento da série Silenciosos Passos.  
     Todo esse processo teve início com a  tela pintada a partir de um frame do filme Alemanha ano zero, onde utilizei tinta vinílica preta, branca e pequenos focos em azul . No inicio, o fato de eu querer reproduzir justamente essa imagem me pareceu muito estranho.  A personagem que caminha pela destruição da Guerra, nesta primeira tela, buscando um consolo, uma força para recomeçar ou a melhor maneira de acabar com sua existência miserável era a argumentação do roteiro do filme que me tomou para além da pintura. Essa sensação do estar sozinho em um lugar desconhecido, em uma cidade ou em qualquer outro lugar hostil, me inquieta. A cidade torna-se o lugar do inevitável, luta pela sobrevivência, do medo, da angústia, do desespero, mas também da esperança. 
      Entretanto não é por escrúpulo moral que, representando a destruição da guerra e o silêncio das formas, deixamos de observar o efeito da luz, da sutileza do azul e a textura da têmpera vinílica. As imagens do decorrer das séries são inicialmente tiradas do jornal, e de fotógrafos reconhecidos . As últimas pinturas foram realizadas a partir de fotografias do meu próprio álbum, imagens das minhas viagens. Em todas essas pinturas em preto e branco, uma névoa parece querer dominar o quadro, assim como a mudez dos corredores em decorrência da perspectiva. Tudo isso é estranhamente silencioso. A cena se desenrola sem que se ouça o ruído dos passos, barulho das rodas ou qualquer palavra. Nenhum som, nenhuma nota da complexa sinfonia que acompanha a multidão e seu movimento. Assim, uma vida privada de som e do espectro das cores nasce perante mim, uma vida cinzenta e silenciosa. Umberto Eco em seu livro A misteriosa chama da rainha Loana descreve essa estranha sensação da névoa que silencia, me fazendo pensar em uma pintura em preto e branco como a névoa que cobre as cores:
“... Descera uma grande névoa de manhã bem cedo e a névoa do dia é pior que a da noite, porque está claro, mas você precisa se mover como se estivesse no escuro. Não se ouvia nem o som dos sinos, como se aquele cinza servisse de silenciador. Até as vozes dos passarinhos enregelados entre os ramos das árvores chegavam como que através de um algodão...” (PG: 357)
Trabalhar o P&B é a arte de traduzir as cores. Trabalhando os tons pela densidade e pela textura no acúmulo da tinta ou acréscimo de material tátil, no caso a areia. Preto e branco fosco, nenhum brilho, estimulam uma leitura tátil, pois percebo e tenho a sensação de contato, tensão e atrito. Trabalhar com o preto e branco vem do aprendizado do desenho, em que sempre aparece aquela preocupação com a gradação, de cobrir o papel com todos os cinzas.
No meu trabalho, a ausência da cor veio como um momento de reflexão, de uma necessidade de presença pela neutralidade. Um tempo para pensar a cor. E esse é o convite que faço ao publico, pensar o silêncio da cor contrapondo ao ruído colorido das cidades. 







Paris
185x156 cm
Têmpera s/ tela






Istambul - Peykhame Cd
185 x 120 x 5,5 cm
Têmpera s/ tela






Rio de Janeiro
185 x 120x 5,5 cm
Têmpera s/ tela







Istambul- Silahtar Mektebi

185 x 120 cm
Têmpera s/ tela


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