quinta-feira, 30 de março de 2017

Decifra-me ou Devoro-te

Retrato Em Branco e Preto

Chico Buarque



“Já conheço os passos dessa estrada

Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho...

O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto (cor)
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar”


Em nossa cultura, o bordado e a costura são hábitos que se restringiram aos ambientes familiares durante séculos, práticas, até então, limitadas às mulheres e às crianças. Por ter um histórico doméstico, essas práticas estão ligadas a uma memória coletiva de ambiente familiar, da infância e do espaço privado. Essa memória mostra-se como uma questão recorrente na arte de hoje: a intimidade do indivíduo.
Vários artistas das décadas de 50 a 70 desfrutaram da já conquistada abertura nas artes visuais para o uso de diversos materiais e métodos, e adotaram uma postura de explorar materiais. A partir de então, na década de 70 no Brasil, artistas como Edith Derdyk e Leonilson, entre outros, começaram a explorar o bordado.
Trabalhar a partir da matéria passou a ser muito pertinente também no meu trabalho, já que comecei a bordar e a costurar a tela por uma necessidade de explorar a trama do tecido, a linha, numa relação mais próxima com o suporte. O que de certa maneira também me aproxima da minha infância, quando por horas e horas, observei minha avó bordar e costurar. A costura tece uma linha que me liga à obra, num trabalho tranquilo de solidão silenciosa.
A série Decifra-me ou Devoro-te surgiu de um desejo de voltar aos retratos e fazer novas experiências quanto à costura e à limitação do azul e vermelho como cor, buscando compreender o tecido, a tela e minha relação com eles. Utilizei-me de um pequeno formato, e escolhi o rosto anônimo de uma criança sorrindo.
Mais uma vez, usei referência realista: uma fotografia de revista, sem relevância. A partir dela, pintei repetitivamente esta imagem em retalhos de tecido de algodão. Utilizei têmpera vinílica branca, preta, vermelha e azul, ora empregando de maneira naturalista, explorando as luzes e as sombras monocromáticas, ora (a)bordando a figura com diferentes tonalidades de linha para bordado. 
A textura do pigmento da têmpera preta surge apenas uma vez. Esta característica, somada à ausência dos olhos, confere ao retrato uma alteração de significado causada pela sensação de estranhamento ausente nos outros trabalhos da série. Retratos com a ausência das cores e dos olhos: como referência a interdição, a cegueira fisiológica e a falta de alcance da visão como condição. 
O olhar, a luz e o cego... não querer ver o que me faz ver. O branco é a luz e o preto a sombra, sem luz não vemos as cores. Os olhos que muitas vezes são vistos como a janela da alma, através dos quais se vê a beleza do mundo, estão ausentes. Por quê? Não existe a beleza? Talvez a vontade de não vê-la.

Estou convencida que essas obras correspondem de alguma forma, aos meus próprios sentimentos. É como se meu trabalho me respondesse: “decifra-me ou te devoro”.




Série :Decifra-me ou devoro-te
2007
Nove obras de 31,3 x 36,5 x 5 cm
Costura e têmpera s/ tela




































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